segunda-feira, 16 de novembro de 2015

TRAGÉDIA EM MARIANA: RASTRO DE DESTRUIÇÃO E LAMA DEVASTA ECOSSISTEMA NO RIO DOCE

Dez dias depois do rompimento das barragens de rejeitos da mineradora Samarco [de propriedade da Vale e da australiana BHP Billiton], na região de Mariana (MG) o cenário é de devastação e desesperança em toda a área atingida, que se estende por centenas de quilômetros. O impacto da enxurrada de 62 milhões de m³ de lama avança rumo ao oceano e deixa um rastro de destruição. O inventário dos prejuízos sociais e ambientais ainda está apenas começando, mas, de acordo com especialistas, os ecossistemas atingidos estão irreversivelmente comprometidos. Embora as empresas responsáveis sejam obrigadas pela Constituição Federal a pagar a recuperação total dos estragos ambientais, neste momento, nem elas nem o governo ou cientistas sabem como será possível fazê-lo. Se o impacto ambiental é ainda desconhecido e a recuperação inimaginável, suas consequências são bem concretas para quem as sente na pele.
Em um pequeno pasto na margem do Rio do Carmo em Barra Longa (MG), Gilson Felipe de Rezende, de 42 anos, cuida de cerca de 15 cabeças de gado. É uma área de menos de um hectare, que até então tinha como vantagem justamente o rio, fonte farta de água para o gado. Fica a exatos 71 quilômetros de distância do ponto em que as barragens da mineradora Samarco romperam. E está coberto de barro. Mesmo a essa distância, a lama foi capaz de formar ali uma “casca” nas margens e no fundo do rio, que chega a um metro de espessura – tanto do lado do pasto de Rezende como na margem oposta. O curso d’água em que, antes, era possível navegar de canoa, virou um rio raso. Nessa crosta de lama, os peixes aparecem aos montes, grudados no chão, como se fossem fósseis. Toda a região tem um forte cheiro de carniça.
“Tinha umas 50 capivaras que ficavam por aqui. Desde que a barragem rompeu, só vimos uma”, conta Rezende, apontando para as pegadas que o rodeor deixou na lama, já endurecida e esbranquiçada por causa do sol forte e do calor da região. A cena impressiona mais quando ele conta como a lama chegou: quando a enxurrada, que vinha do Rio Gualaxo do Norte, desaguou no Rio do Carmo, seguiu tanto pelo fluxo normal da água quanto no sentido oposto. “A lama avançou contra a correnteza”, explica. E avançou quase um quilômetro contra a água, até formar uma espécie de represa. Agora, ao chegar perto de Barra Longa, o Rio do Carmo tem parte de seu curso desviado para o mato. O que segue é um fio de água ao redor das margens de lama grossa.


“Perdi uma vaca naquela noite, quando a lama chegou. Quase perdemos outra no dia seguinte, atolada na lama, mas conseguimos salvar”, contra o serralheiro, enquanto caminha sobre a lama seca, tão alta que praticamente encobre as cercas que dividiam a propriedade que ele cuida da terra vizinha. “Era uma vaca que tirava 15 litros de leite por dia”, lamenta, ao se recordar do bovino perdido. Todo o rebanho, entretanto, está em risco. A água dos animais era o próprio rio. “As duas nascentes que têm por aqui secaram. Vai demorar uns 10 anos para isso voltar a ser como era.” :: LEIA MAIS » F: Portal Poções 
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